Brasil assume liderança mundial na produção de carne bovina em meio a recorde comercial com a China

O ano de 2025 marcou uma virada histórica para o agronegócio nacional. Estimativas de mercado confirmam que o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o maior produtor de carne bovina do mundo. Segundo dados compilados pela Reuters, o país superou as previsões de produção em centenas de milhares de toneladas, um desempenho que ajudou a aliviar a escassez global de oferta e conteve a disparada nos preços da proteína.

O país já detinha o título de maior exportador global, com embarques que totalizaram quase US$ 17 bilhões em 2025. Embora os números oficiais de produção só devam ser divulgados em fevereiro, analistas revisaram suas estimativas para cima recentemente. Os pecuaristas brasileiros aumentaram o envio de animais para o abate, capitalizando sobre a demanda aquecida de grandes importadores como a China e os próprios Estados Unidos, onde a baixa oferta doméstica empurrou os preços para níveis recordes.

A demanda, aliás, tem se mostrado resiliente. A Bloomberg aponta que, apesar dos preços elevados, o consumo segue firme. Um fator curioso que deve impulsionar ainda mais as vendas para o mercado norte-americano é a revisão das diretrizes dietéticas pela administração Trump, que colocou a proteína no topo da pirâmide alimentar, incentivando o consumo de carne.

Recordes comerciais e o fator geopolítico

A ascensão da pecuária ocorre em um cenário macroeconômico de aprofundamento das relações com o gigante asiático. O comércio bilateral entre Brasil e China atingiu o recorde de US$ 171 bilhões em 2025, mais que o dobro do volume registrado com os Estados Unidos. Esse crescimento foi impulsionado tanto pela voracidade chinesa por petróleo, produtos agrícolas e minerais brasileiros, quanto pelas tensões diplomáticas com Washington.

O governo norte-americano impôs tarifas de 50% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, citando divergências políticas ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Enquanto Brasília corria para proteger seus setores exportadores, a China agiu para suavizar o golpe, sinalizando prontidão para absorver mais mercadorias brasileiras, desde café e petróleo até insumos industriais e aeronaves.

Os dados do Conselho Empresarial Brasil-China mostram que o país asiático absorveu 28,7% de todas as exportações brasileiras em 2025, consolidando-se como o parceiro mais importante em ambas as pontas da balança comercial. O superávit brasileiro com os chineses foi de US$ 29,1 bilhões, estendendo uma sequência positiva que já dura 17 anos. O petróleo dominou esse fluxo, com a China comprando US$ 20 bilhões do produto brasileiro — quatro vezes e meia o volume adquirido pelos americanos. O café também teve destaque, com as exportações para a China mais que dobrando de valor e atingindo US$ 459 milhões.

Estabilidade e novos rumos para 2026

Apesar do desempenho estelar em 2025, a indústria da carne adota cautela para o próximo ciclo. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) projeta que as exportações devem permanecer estáveis em 2026, oscilando entre 3,3 milhões e 3,5 milhões de toneladas. Esse patamar se compara às 3,5 milhões de toneladas exportadas no ano passado, que foi o melhor ano da história em volume e receita.

Roberto Perosa, presidente da Abiec, explica que a estabilidade prevista se deve, em parte, às salvaguardas impostas pela China para proteger sua indústria local, o que restringe o acesso de exportadores brasileiros e de outros países. Diante disso, o setor está executando um pivô estratégico: volumes que não forem absorvidos pela China — que no ano passado comprou cerca de metade dos embarques brasileiros — serão redirecionados.

A estratégia foca na abertura e ampliação de mercados alternativos. Perosa cita autorizações recentes para exportar ao Vietnã e negociações avançadas com Japão e Coreia do Sul. Há também um esforço concentrado no Sudeste Asiático, com a Indonésia devendo liberar 18 plantas brasileiras após inspeções recentes, além de tratativas para aumentar os volumes enviados às Filipinas.

A retomada do mercado americano

Curiosamente, mesmo com as tarifas impostas por Donald Trump — algumas das quais, incidentes sobre café e suco de laranja, foram posteriormente removidas —, os Estados Unidos continuam sendo um parceiro vital para a carne brasileira.

Segundo as novas projeções da Abiec, os EUA, que foram o segundo maior mercado para a carne brasileira no ano passado, devem comprar 400 mil toneladas este ano, um salto significativo em relação às 270 mil toneladas de 2025. Roberto Perosa ressalta que os volumes do ano passado poderiam ter sido ainda maiores não fossem as sobretaxas, mas a demanda estrutural americana por proteína sugere que o fluxo comercial deve se intensificar, independentemente dos ruídos políticos.